gerir-e-liderar

Do proibido ao desejado – Gerir & Liderar

Em 1882 foi proibido o uso do bioco, teoricamente porque não permitia identificar as pessoas. 134 anos depois o bioco é alvo da criatividade e da inovação e volta de cara lavada e muito desejável um pouco por todo o mundo.

Mas o que é o bioco? Mais não é que uma capa usada pelas mulheres na zona do Algarve, Portugal, criada num tempo em que estas tinham muito pouca liberdade, quase como um grito de libertação.

“Estamos a falar de um tempo em que a mulher na Europa não devia sair de casa sozinha, a não ser acompanhada pelo marido e pela aia, e a mulher algarvia encontrou uma forma de dar a volta a esta situação, criando uma peça que lhe dava liberdade para poder sair à rua sem depender de outrem”, conta-nos Lurdes Silva, a mulher que deu nova vida ao bioco.

“Por trás do bioco, aconteceram muitas histórias, muitos amores proibidos, muito mistério, muito misticismo, muitos poetas que falaram dele”, confessa.

Conversámos com Lurdes Silva, empresária e académica, a senhora que desempoeirou o bioco, lhe deu uma nova cara, novas linhas e cores, e que trabalhou a peça ao pormenor, como se vê no forro de todas as peças, onde consta a história do Bioco em português e em inglês, e no botão que usa o logo da Bioco Tradition, uma réplica dos botões de Napoleão Bonaparte.

GerirELiderar (G&L): Como mulher empreendedora que criou um produto diferente, fale-nos um pouco sobre esta empresa que criou.

Lurdes Silva (LS): O objetivo desta empresa é recriar produtos com tradição, mas aliada ao design. O ADN da marca Bioco Tradition é recriar peças com uma história por trás, ir buscar as nossas raízes, a nossa identidade, quem nós somos, de onde viemos. Isso é fundamental. Mas, claro, tornando as peças sempre hedonistas, usáveis.

G&L: O que é que este bioco vai comunicar ao público que o adquire além-fronteiras.

LS: Tenho estado em alguns eventos onde contacto com pessoas de várias nacionalidades e tenho tido experiências muito positivas. O feedback é muito positivo pela história que está por trás de cada peça, porque transporto esta história. As nossas peças contam a sua história no seu interior em português e em inglês, uma história do séc. XVIII, séc. XIX. Já contactei com japoneses que adoraram a ideia, com espanhóis, ingleses, alemães e todos aderiram à ideia de poder vestir uma peça com história, pelo prazer que lhes dá usar uma peça recriada de uma forma atual, mas que tem uma identidade, que tem uma base histórica, neste caso portuguesa.

G&L: Quais são os maiores desafios que sentiu enquanto uma mulher que cria uma empresa a partir do Algarve, com um produto muito diferente daquilo que é habitual e para um setor da moda que está tão explorado hoje em dia?

LS: A ideia surgiu porque sou uma apaixonada pela nossa tradição. Sempre gostei de saber o que nos pertence e como é que as coisas funcionavam no passado.

Vesti um bioco e apaixonei-me por ele.

Não tive logo a pretensão de avançar a este nível, mas despertou-me para fazer investigação sobre a peça. Nas muitas noites perdidas, comecei a descobrir que a história do bioco parecia, como dizia o Presidente da Câmara na altura “os contos das mil e uma noites”. Por trás do bioco, aconteceram muitas histórias, muitos amores proibidos, muito mistério, muito misticismo, muitos poetas que falaram dele. Estamos a falar de um tempo em que a mulher na Europa não devia sair de casa sozinha, a não ser acompanhada pelo marido e pela aia, e a mulher algarvia encontrou uma forma de dar a volta a esta situação, criando uma peça que lhe dava liberdade para poder sair à rua sem depender de outrem. Naquela época, a mulher, para sair à rua, tinha que vestir os espartilhos, os saiotes, digamos uma série de indumentárias que, além de demorarem um certo tempo, dependiam, mais uma vez, de outra pessoa que, normalmente, era a aia. A capa podia facilmente ser colocada por cima das vestes e sair livremente para fazer aquilo que fosse. Em 1892, foi proibido por lei o seu uso nos templos e nas ruas, com a alegação de que permitia ocultar a identidade de quem o vestia. A luta contra esta lei foi um marco da libertação da mulher e houve feministas que se insurgiram, uma em especial, que veio para Lisboa lutar contra a proibição do bioco.

Por todos estes motivos, achei que era uma peça que tinha que trazer para a atualidade. Na altura, surge-me a ideia, faço a investigação e penso: – Será que alguém vai considerar isto uma ideia viável, será que as pessoas vão gostar ao ponto de o usarem? Uma coisa é nós gostarmos, apaixonarmo-nos e acharmos que é algo interessante, e outra coisa é os outros sentirem algum interesse por essa situação. No dia 21 de dezembro de 2014, fiz um teste de mercado, para avaliar o que as pessoas achavam da peça. As reações foram de dois tipos. A primeira foi de pessoas que paravam para ver a recriação que eu tinha feito, mas sem saber o que é que se passava ali, porque nunca tinham ouvido falar da peça. Quando eu contava a história, ficavam entusiasmadas e achavam uma coisa espetacular. Depois, havia as pessoas que conheciam o bioco e sabiam que era uma peça que tinha existido no nosso passado e faz parte da nossa identidade. Davam-me os parabéns porque viram que alguém pegou numa peça que tinha sido proibida. Então eu pensei que, realmente, talvez fizesse sentido.

Pretendo que o bioco seja uma peça de moda intemporal, que tenha a ver com a nossa história, uma peça que as pessoas, quando lhe perguntam o que trazem vestido, possam abrir e mostrar a história gravada em português e em inglês no interior. Já tive situações de pessoas que, ao experimentar vestir a capa, disseram que se sentiam outra pessoa, como se estivessem a voltar ao passado. É este o meu objetivo. Não pretendo, de modo algum, competir com os excelentes estilistas que temos no mercado.

A minha pretensão é dirigir-me a um nicho muito concreto de pessoas que gostam da nossa cultura, pessoas que acham que Portugal é um país pequeno, mas com qualidade e diversidade em termos culturais.

G&L: A este processo de empreendedorismo de criar fazem sempre falta alguns apoios, não só financeiros, mas também de mentoria. Quem é que tem estado a apoiar a sua ideia, o seu projeto?

LS: Devo muito à Sandra Correia, CEO da Pelcor, que foi a minha mentora, a pessoa que, desde o primeiro dia, acreditou em mim. Já a conhecia há vários anos, pois pertencíamos ao mesmo grupo, o New Beginning for Portugal. Quando lhe pedi opinião, ela fez-me lembrar que, desde sempre, quis fazer algo ligado à nossa tradição, ao nosso passado. “O bichinho está aí. Se é o bioco, se é outra coisa qualquer, não sei. Está na hora, vamos em frente!” Dentro do grupo, conheci a designer Maria Caroço. Conheci também no grupo a cantora Viviane que me tem dado bastante apoio. Tem sido um dia de cada vez, mas as pessoas gostam das peças, porque elas são realmente bonitas.

Elas foram recriadas em três modelos, porque aproveitamos a grande evolução que o bioco teve ao longo do tempo: o “bioco mistério” que é uma capa concebida para ficar bem a qualquer pessoa, o “bioco paixão”, uma capa mais curta, e o “bioco tradição”, uma capa mais formal. Não são capas para pessoas diferentes, porque a mesma pessoa pode vesti-las em situações diferentes. O importante é que as pessoas gostam do design que a capa tem e, quando veem a história contada no interior, ficam muito admiradas, porque nunca viram. De facto, eu própria nunca tinha visto. Foi uma ideia que tive na altura e penso que foi um valor acrescentado, porque o objetivo é que as pessoas nunca se esqueçam da história.

G&L: Pensando nos muitos jovens empreendedores que lutam todos os dias para concretizar os seus sonhos, quais são as dicas, as lições aprendidas que pode partilhar com todos eles?

LS: Acho que o mais importante é a paixão.

O que me moveu foi a paixão pela nossa tradição.

Posso dizer que, quase todos os dias, me deitava às 4, 5, 6 horas da manhã, mas não fazia ideia de que já era tão tarde e não me sentia cansada, porque, quanto mais pesquisava, mais vontade tinha de o fazer. Era algo que estava motivada para fazer, não o considerava trabalho, era a minha paixão. A Oprah tem uma frase algo como “Sente a paixão que de ti emana, para seguires em frente”. É mesmo isso. A paixão faz-nos seguir em frente e focar-nos naquilo que pretendemos, porque, se nós nos focarmos, vamos ver as coisas com outros olhos e isso é muito importante. Este projeto foi uma aprendizagem para mim. Todos os dias aprendo coisas novas e é isso que me eleva em termos de espírito. Temos que viver nesta perspetiva: a vida é curta e, mesmo que achemos que sabemos alguma coisa, querer aprender mais com os que estão ao nosso lado; partilhar, porque há sempre alguém que sabe mais do que nós em determinada área. Às vezes, nem sabe, mas vê numa perspetiva diferente da nossa, o que dá ao nosso projeto hipóteses para evoluir para outros lados que nós não estávamos a ver.

O segredo é manter o foco, partilhar, dar e receber e lutar, porque em todos os projetos há momentos melhores do que outros e a vida não é sempre cor-de-rosa. Muitas vezes, quando aparece um desvio na nossa vida, este não acontece por acaso, está ali por algum motivo. Pode mesmo aparecer um sinal de stop e é bom que o respeitemos, porque, se calhar, temos mesmo que parar ali, para ganharmos tempo para alterar alguma coisa, ou ver as coisas com outros olhos. Não vejamos estes obstáculos como algo que se atravessa no nosso caminho, mas algo que até pode acrescentar valor ao projeto que estamos a levar para a frente.

G&L: Onde é que, daqui a 5 anos, espera estar com a Bioco Tradition?

LS: Uma coisa que eu gostaria de ver, era as peças lá fora, porque já percebi que existem públicos que dão valor a este tipo de peças. São mulheres modernas, atuais que gostam da nossa cultura, que gostam de coisas diferentes. Gostaria também de fazer evoluir o bioco, mas também recriar outras peças. Ideias não me faltam.

G&L: A Lurdes mudou várias vezes de vida. Como é possível mudar tudo na vida?

LS: Tudo é possível, desde que nós queiramos. Tem de partir de nós e temos que acreditar, porque,se não acreditarmos no que queremos fazer, não chegamos a lado nenhum. Este é um princípio básico. Há situações mais fáceis, outras mais difíceis, há obstáculos todos os dias na nossa vida, mas cabe a cada um de nós ver aquilo de que gostamos, qual é a nossa paixão, aquilo que nos move. A partir daí, apostar, focarmo-nos, formarmo-nos nas áreas que acharmos que nos devemos formar. Por vezes, basta uma formação de base e investigarmos, fazermos autoformação. Eu já fiz muita coisa e espero ainda vir a fazer, porque quero viver novas experiências.

Quando olhar para trás, quero que a história da minha vida seja uma história que goste de contar.

Ao olhar para trás, já vejo muitas coisas, mas, se Deus quiser, espero fazer ainda muito mais, porque gosto de fazer coisas diferentes. Não pretendo fazer coisas soltas, mas tentar que elas interajam, se complementem, digamos assim. Gosto muito de aprender e fico muito insatisfeita quando descubro algo que desconhecia. Este projeto da Bioco Tradition é um pouco mais alto do que o resto, mas o principal objetivo é sempre a aprendizagem.

Mas há muito mais do que aprender e ainda bem que há. É o saber, o conhecer e o fazer. É possível fazer as coisas com princípio, meio e fim. A vida fecha-nos uma porta, mas abre-nos muitas janelas. Se nos focarmos na porta que se fechou, nunca vamos ver as oportunidades que estão nas janelas que se vão abrir. Na minha idade, há portas que começam a fechar-se por várias razões, seja porque o passado não é igual ao presente ou porque há profissões que deixaram de fazer sentido, e ainda bem, é sinal de evolução. Já Darwin dizia que “ou nos adaptamos ou morremos”. Por isso, nós, como seres vivos, como espécie, temos que nos adaptar, não baixar os braços, não ficar à espera de que as coisas aconteçam, mas fazer acontecer. Temos de olhar pela janela, ver a oportunidade, fixar objetivos, focar, desenvolver a estratégia, meta e… conseguir!

G&L: Que janelas é que já abriu?

LS: Já trabalhei na área de turismo e sou uma das primeiras formadoras do País. Há 23 ou 24 anos, pertenci a um grupo de 15 ou 16 pessoas de diferentes regiões do País que, na altura, foram escolhidas para formar formadores. Fui eu que tive de formar todos os formadores que existem neste momento no Algarve. Sou docente universitária há 16 anos, escrevi para várias revistas na área do marketing, tenho um livro editado sobre a área do retalho, sou coach, sou líder certificada em ioga do riso, faço sessões motivacionais para empresas e para associações sem fins lucrativos. Faço voluntariado: sou voluntária no Banco Alimentar e em Associações onde faço ioga do riso para idosos, por acordo com Câmaras Municipais e outras. Como professora universitária, desde sempre organizei eventos, como palestras e atividades com os alunos em empresas. Já tive uma empresa na área dos serviços. Trabalhei com multinacionais, como a Nestlé, a Danone, a Freshnet, a Unicer, a Central de Cervejas, a Bimbo. Também já trabalhei na parte da promoção de produtos, reposição, pontos de venda. Digamos que já fiz algumas coisas… (risos), embora, olhando para trás, me pareça pouco, porque há ainda tanto que gostaria de fazer e espero ainda um dia fazer.

G&L: Depois desta experiência toda, qual é a importância que acha, ao nível da gestão de empresas, que tem o trabalho em equipa e como é que podemos potenciá-lo?

LS: Para a empresa poder funcionar, as equipas têm que ser muito bem alinhadas. Isto tem sido um problema muito grave em muitas empresas. Esqueci-me de dizer que também sou cliente mistério. Muitas vezes, as empresas contam-me que até pagam bem aos seus colaboradores, que eles têm regalias a vários níveis e não percebem como é que podem estar desmotivados, não cumprem, não se consegue que eles atinjam os objetivos pretendidos. A questão é esta: temos que pensar que as equipas de colaboradores são seres humanos. Essas pessoas podem até estar confortáveis em termos económicos dentro das empresas, mas não vivem numa redoma de vidro. Elas interagem com a sociedade e, quando saem das empresas, estão em contacto com os seus familiares, com os meios de comunicação social, ouvem o que se passa no mundo e, quer queiramos quer não, a temática, os assuntos das conversas das pessoas no dia-a-dia é sobre o estar mal, porque atravessamos uma fase menos boa (não lhe quero chamar crise, porque tem vários significados). Sabem que A ou B ficou desempregado, a situação lá em casa não é a melhor, seja porque há ordenados que foram reduzidos, problemas de saúde, ou outro motivo qualquer.

As pessoas têm os seus próprios problemas fora da sua atividade profissional e isso é uma carga negativa que acaba por ser transportada para dentro da empresa.

Esses assuntos têm de ser muito bem resolvidos e uma das formas é tentar motivar as equipas, porque uma equipa motivada consegue melhores resultados. A motivação é dar às pessoas os motivos que as conduzem à ação. Ora, há empresas que só veem os colaboradores na ótica do trabalho, que só contabilizam o tempo passado na empresa. Felizmente, já começa a haver um número significativo de empresas a ver de outra forma, porque veem as vantagens. Eu faço sessões com empresas a que chamo smile motivation e, passadas algumas semanas, vou auscultar o resultado. O feedback que me é dado pelos responsáveis das empresas é sempre o mesmo: a equipa está motivada e as coisas funcionam melhor. Porquê? Porque as sessões quebram os laços entre hierarquias e isso é muito importante. Deixar de ver o chefe não como o chefe, mas como alguém que naquele momento está ao seu lado a fazer o mesmo que ele, a rir, a fazer exercícios ou outra coisa qualquer, mostra-o despido da sua função profissional. Em termos cerebrais, isso acaba por ser muito benéfico para as empresas, porque passa pela saúde física e mental das pessoas.

Antes das sessões, estudo a situação laboral empresa. Isto permite-me, durante as sessões, gerir conflitos, colocando, por exemplo, pessoas que se chocam a fazer coisas em conjunto, de modo a quebrar o gelo, fazer ver o colega sobre uma nova ótica. Fazemos muito destas “terapias”, juntando alguns exercícios de team building com ioga do riso (a que chamo smile motivation), com jogos de desenvolvimento pessoal. Isto tem tido muita procura e nota-se que tem realmente benefícios para a empresa em termos de motivação, gestão de conflitos, aprender a lidar com a mudança.

A mudança é, muitas vezes, geradora de conflitos, porque as pessoas têm dificuldade em sair da sua zona de conforto e aceitar novas tarefas.

Cria-se ansiedade, criam-se medos e estes geram instabilidade. Muitas vezes, através dos jogos, conseguem-se aliviar estas ansiedades e desbloquear muitas situações.

Podem dizer que isto de motivar as equipas não é duradouro. Claro que não é. É como dar uma injeção. Tem uma durabilidade e, passado algum tempo, tem que se repetir. Quanto àautomotivação, é possível, mas nem todos são capazes de a fazer. Também pode ser o líder a motivar os seus colaboradores, mas é muito mais fácil ser a motivação feita por alguém que vem de fora do que por alguém de dentro. É preciso começar a sair um pouco fora da caixa. Fazer coisas que, geralmente, as empresas não estavam habituadas a fazer.

Lurdes Silva é a criadora da marca Bioco Tradition, uma amante da tradição portuguesa. Docente Universitária e Doutorada em Ciências Económicas e Empresarias, publica regularmente artigos na área do Marketing e do Comércio em revistas da especialidade, sendo autora do Livro “A Sedução das Compras.” Realiza cursos ‘custom made’ para empresas, sessões de ‘coaching one to one’ e de motivação para quadros de empresas. Formadora de diversas entidades na área do Comércio, Marketing e do Turismo há cerca de 19 anos, desenvolve a atividade de Consultora e de Coach em PME.

Post by filcris